1:1 Paridade
Metodologia
Paridade salarial: justiça para quem faz o trabalho justo

Homens ganham mais que mulheres no mesmo trabalho?

RAIS · emprego formal brasileiro · 51,8 milhões de vínculos

Toda vez que se fala em diferença de salário entre homens e mulheres, aparecem dois números que não conversam. De um lado, a manchete: elas ganham 20% menos. Do outro, a resposta: a comparação é injusta, porque homens e mulheres não fazem o mesmo trabalho, não trabalham as mesmas horas e não correm os mesmos riscos.

Este site tenta resolver a briga com dados. Usamos a RAIS, o registro oficial de todos os empregos com carteira e do serviço público, nos anos de 2023, 2024 e 2025: 150,8 milhões de vínculos de trabalho. Cruzamos com o Censo 2022, o PIB dos municípios e o IDH. A régua é a da paridade: comparar quem faz o mesmo trabalho, no mesmo lugar, com a mesma formação, experiência e condição de trabalho.

Testamos uma a uma as explicações mais citadas: profissão, horas, risco, adicionais, experiência, filhos e tamanho da empresa. Cada capítulo traz uma conclusão no título, o gráfico que a sustenta e, para quem quiser ir fundo, os números completos. No fim, um diagnóstico de onde a diferença está e de quais caminhos podem reduzi-la. Todo o código da análise é aberto e está no GitHub, para quem quiser conferir ou refazer as contas.

Resumo em vídeo (2min40s), com narração e legendas.

A ideia central

O gap salarial tem várias causas. Mas, comparando homem e mulher no mesmo trabalho, ela ainda ganha menos, e nem horas a mais nem adicional de risco explicam essa diferença.

As teses testadas

  • Profissão: homens e mulheres escolhem áreas diferentes, que pagam diferente.
  • Horas: homens trabalham mais horas remuneradas.
  • Risco: homens aceitam os trabalhos perigosos, confinados e em turno, que pagam adicional.
  • Filhos: a mulher que se afasta para cuidar dos filhos atrasa a carreira.
  • Personalidade: mulheres são mais amáveis e negociam menos.

O teste justo: comparar homens e mulheres cada vez mais parecidos e ver quanto do gap sobra.

A história em 1 minuto

    Comparando quem faz o mesmo trabalho, ela ainda ganha 8% menos

    Cada barra compara homens e mulheres com mais uma característica igualada. A primeira é a média de todos; a última compara pessoas na mesma ocupação e na mesma cidade, com o mesmo perfil.

    O que isso quer dizer

    Aprofundar: de onde vem cada ponto do gap e o papel da instrução

    De onde vem cada ponto do gap (Oaxaca-Blinder)

    Barras verdes explicam por que o homem ganha mais; amarelas puxam a favor da mulher; a escura é o que nenhuma variável observada explica.

    Instrução: as mulheres estudam mais e ganham menos

    Gap em cada nível de instrução

    Média simplesMesma função e perfil

    Mulheres em cada nível

    Mulheres com superior: onde trabalham

      Homens com superior: onde trabalham

        No mesmo grupo de trabalho, ela ganha menos em 3 de cada 4 casos

        Dividimos os trabalhadores em grupos de pessoas iguais: mesma ocupação, mesmo município, mesma instrução e mesma faixa de idade. Em cada grupo comparamos homens e mulheres. Para saber se a diferença é real, fizemos o mesmo sorteando dois grupos de homens: se a diferença entre homem e mulher fosse só variação normal, os dois desenhos seriam iguais.

        Quanto a mulher ganha a mais ou a menos que o homem, em cada grupo (% dos grupos, ponderado)

        Mulher × homem no mesmo grupoHomem × homem sorteados (placebo)

        O que isso quer dizer

        Mais horas e adicional de risco explicam só 1,4 ponto do gap

        Todas as explicações de tempo e de condição de trabalho numa única conta: jornada, tempo de casa, experiência, periculosidade, insalubridade, confinamento, turno e risco de acidente do posto.

        Quanto do gap cada grupo de fatores explica (pontos percentuais)

        O que isso quer dizer

        Aprofundar: médias de cada fator, conta completa e experiência

        Sem comparar a mesma ocupação

        Dentro da mesma ocupação

        Tempo de experiência

        Experiência potencial = idade menos anos de estudo menos 6 (Mincer). Supõe trabalho contínuo, então superestima a de quem interrompeu a carreira.

        Salário por anos de carreira

        MulheresHomens

        Gap na mesma função, por experiência

        Por tempo no emprego atual

        Obra, fábrica e campo: trabalho essencial, mal remunerado, e não é ele que explica o gap

        Remuneração mensal mediana, em reais

        70%+ homens70%+ mulheresMistaMediana de todo o emprego formal

        O que isso quer dizer

        A força física explica?

        Separamos o trabalho operacional em esforço físico pesado (obra, carga e descarga, campo, mineração, abate, coleta de lixo, solda, forno) e operacional leve ou de precisão (linha de produção, embalagem, costura, montagem eletrônica). Se a força fosse o que conta, a vantagem do homem apareceria no pesado e sumiria no leve.

        Diferença da mulher na mesma ocupação (círculo vazado: média simples)

        O que isso quer dizer

        E quem trabalha com periculosidade ou insalubridade?

        Homens em trabalho operacional com periculosidade, insalubridade, confinamento ou turno, comparados com mulheres em trabalho operacional sem essas condições.

        Quanto cada grupo ganha a mais que a mulher em trabalho operacional sem condição adversa, com o mesmo perfil

        O que isso quer dizer

        Aprofundar: prêmio de cada condição, risco por ocupação e correlação

        Remuneração média: trabalho operacional × demais funções

        MulheresHomens

        Prêmio de cada condição

        Contra o trabalho operacional sem condição adversa, mesmo sexo e perfil.

        Periculosidade, confinamento e turno em todas as ocupações

        Prêmio = quanto a ocupação paga a mais que as demais para trabalhadores de mesmo sexo e perfil.

        Mais perigo, mais homens, menos salário

        Ocupações em cinco grupos de mesmo tamanho pela taxa de acidente. Barra: salário-hora mediano. Rótulo: % de homens.

        Mais risco, mais vantagem do homem na mesma função?

        70%+ homensMista70%+ mulheres

        Elas estão nas profissões de pessoas, eles nas de coisas, e ele ganha mais nas duas

        Cada faixa liga o eixo de interesses (pessoas ou coisas) à composição da profissão (feminina: 70%+ mulheres; masculina: 70%+ homens) e a quem ganha mais na mesma função. A espessura é o número de trabalhadores.

        Termina onde o homem ganha maisEmpate ou mulher ganha maisEtapa intermediária

        O que isso quer dizer

        Aprofundar: mapa das 1.443 profissões

        Mapa das profissões

        PessoasCoisas e sistemasOutrasTamanho = nº de vínculos

        Nas ocupações com mais mulheres, a diferença encolhe, mas não vira a favor delas

        As 20 maiores ocupações em que as mulheres são maioria. Diferença da mulher em relação ao homem na mesma ocupação, com o mesmo perfil. A barra é o intervalo de confiança de 95%; o círculo vazado, a média simples. À direita do zero, ela ganha mais.

        O que isso quer dizer

        Aprofundar: as 20 ocupações, profissões de mercado e de carreira pública, as 1.300 ocupações e as horas

        Profissões selecionadas: carreira pública e mercado

        Profissões conhecidas, de maioria feminina ou masculina. Onde há piso e carreira pública, o gap fica perto de zero; onde o salário se negocia, ele cresce.

        Todas as ocupações, mesma função e mesmo diploma

        Homem ganha maisEntre −5% e +5%Mulher ganha mais

        Horas contratadas

        MulheresHomens

        Empresa grande não é mais justa: o gap na mesma função é maior nas grandes

        Gap na mesma ocupação, por tamanho do estabelecimento, só no setor privado. A RAIS pública informa o porte do estabelecimento, não da empresa inteira, e não diz se há plano de carreira; empresa grande é o melhor indicador disponível para isso.

        Diferença da mulher na mesma função, por porte (círculo vazado: média simples)

        O que isso quer dizer

        Os segmentos mais e menos justos

        Gap na mesma ocupação, por atividade econômica (divisões da CNAE com pelo menos 500 homens e 500 mulheres na amostra).

        Mais justos

        Menos justos

        O que isso quer dizer

        Aprofundar: por tipo de empregador e todos os segmentos

        Por natureza jurídica

        A diferença cresce depois dos 30 anos, na idade dos filhos

        Gap na mesma função, por faixa de idade. A faixa amarela marca dos 25 aos 39 anos, onde se concentram as licenças-maternidade ( em 2023, idade mediana de anos).

        O que isso quer dizer

        Aprofundar: chegada à gestão e licença-maternidade

        Em cargos de direção e gerência, entre quem tem diploma

        MulheresHomens

        Licenças: sempre RAIS 2023. A partir de 2024 o registro de afastamentos ficou incompleto (todas as causas caem 35% a 50%).

        A maternidade explica a parte do gap que cresce com a idade, não o gap inteiro

        A RAIS pública não segue a mesma mulher antes e depois do filho. Por isso juntamos quatro tipos de evidência: o que acontece com cada geração entre 2023 e 2025, o efeito de tirar da conta quem teve filho no ano, a fecundidade de cada município (Censo 2022) e estudos que usaram a RAIS identificada.

        Gap na mesma função, por geração de nascimento: 2023 → 2025

        O que isso quer dizer

        Aprofundar: gap por fecundidade do município

        Municípios por quartil de filhos por mulher (Censo 2022)

        Em nenhuma região do país ela ganha mais na mesma função

        Gap por mesorregião do IBGE. Quanto mais escuro, maior a diferença contra a mulher. Passe o mouse para ver os números.

        O que isso quer dizer

        Aprofundar: teste de homogeneidade, regiões, base × topo e 2023 a 2025

        Por grande região

        O gap mora no topo

        Regressão quantílica incondicional (RIF): gap na mesma função em cada ponto da distribuição de salários.

        IDH, renda e escolaridade da cidade mudam pouco o gap; cidade grande e mulher no mercado reduzem

        Cruzamos cada trabalhador com os indicadores do seu município: IDHM (PNUD), PIB per capita (IBGE) e dados do Censo 2022 (alfabetização, participação das mulheres na força de trabalho, renda das mulheres em relação à dos homens incluindo informais, fecundidade e população). A barra mostra quanto o gap na mesma função muda quando o indicador sobe um desvio-padrão. À direita do zero, o gap diminui.

        O que isso quer dizer

        Aprofundar: todos os indicadores juntos e quartis de IDHM

        Modelo com todos os indicadores ao mesmo tempo

        Municípios por quartil de IDHM

        As teses importadas dos Estados Unidos, do Canadá e da Europa não se confirmam no Brasil em pontos centrais

        Boa parte do debate sobre a diferença salarial repete conclusões de estudos feitos em países ricos: mulheres preferem profissões ligadas a pessoas, negociam menos, competem menos, evitam risco e jornadas extremas, e por isso ganham menos. Pegamos a bibliografia de base dessas teses, transformamos cada uma numa previsão e conferimos na RAIS. O padrão de onde homens e mulheres trabalham se repete aqui. A explicação para o salário, em grande parte, não. Personalidade não aparece em registro administrativo; para ela, só há sinais indiretos.

        Onde o Brasil diverge

        Escolha de área. Nos estudos americanos, a concentração das mulheres em profissões de cuidado explica boa parte do gap. Aqui, as ocupações ligadas a pessoas pagam mais que as de “coisas”, porque estas incluem obra, fábrica e campo. · Instrução. As brasileiras estudam mais que os homens: controlar a instrução dobra o gap em vez de reduzi-lo. · Risco e horas. Adicionais de risco e horas contratadas explicam cerca de 2 pontos; o trabalho perigoso não paga um prêmio que justifique a diferença. · Paradoxo da igualdade. Entre as brasileiras com mais instrução, que têm mais liberdade de escolha, a segregação cai, e as regiões ricas não são mais segregadas que as pobres. · Onde converge. A divisão entre ocupações de pessoas e de coisas, a menor presença feminina no topo e o salto do gap depois dos 30 anos, quando chegam os filhos, aparecem também aqui.

        A bibliografia de base, conferida no Brasil

        Os estudos que sustentam as teses deste capítulo, um a um, contra o que os 150 milhões de vínculos da RAIS mostram. A RAIS não mede personalidade nem interesses; quando a previsão é sobre salário ou ocupação, ela pode ser conferida.

        Referências

        • Babcock, L. e Laschever, S. (2003). Women don't ask: negotiation and the gender divide. Princeton: Princeton University Press. ISBN 978-0-691-08940-9.
        • Costa, P. T., Terracciano, A. e McCrae, R. R. (2001). Gender differences in personality traits across cultures: robust and surprising findings. Journal of Personality and Social Psychology, 81(2), 322-331. doi:10.1037/0022-3514.81.2.322
        • Lippa, R. A. (2010). Sex differences in personality traits and gender-related occupational preferences across 53 nations: testing evolutionary and social-environmental theories. Archives of Sexual Behavior, 39(3), 619-636. doi:10.1007/s10508-008-9380-7
        • Niederle, M. e Vesterlund, L. (2007). Do women shy away from competition? Do men compete too much? The Quarterly Journal of Economics, 122(3), 1067-1101. doi:10.1162/qjec.122.3.1067
        • Pellegrini, A. D. e Smith, P. K. (1998). Physical activity play: the nature and function of a neglected aspect of play. Child Development, 69(3), 577-598. doi:10.1111/j.1467-8624.1998.tb06226.x
        • Sandseter, E. B. H. e Kennair, L. E. O. (2011). Children's risky play from an evolutionary perspective: the anti-phobic effects of thrilling experiences. Evolutionary Psychology, 9(2), 257-284. doi:10.1177/147470491100900212
        • Schmitt, D. P., Realo, A., Voracek, M. e Allik, J. (2008). Why can't a man be more like a woman? Sex differences in Big Five personality traits across 55 cultures. Journal of Personality and Social Psychology, 94(1), 168-182. doi:10.1037/0022-3514.94.1.168
        • Su, R., Rounds, J. e Armstrong, P. I. (2009). Men and things, women and people: a meta-analysis of sex differences in interests. Psychological Bulletin, 135(6), 859-884. doi:10.1037/a0017364
        Outros estudos usados na comparação
        • Blau, F. e Kahn, L. (2017). The gender wage gap: extent, trends, and explanations. Journal of Economic Literature, 55(3), 789-865. doi:10.1257/jel.20160995
        • Croson, R. e Gneezy, U. (2009). Gender differences in preferences. Journal of Economic Literature, 47(2), 448-474. doi:10.1257/jel.47.2.448
        • Falk, A. e Hermle, J. (2018). Relationship of gender differences in preferences to economic development and gender equality. Science, 362(6412). doi:10.1126/science.aas9899
        • Goldin, C. (2014). A grand gender convergence: its last chapter. American Economic Review, 104(4), 1091-1119. doi:10.1257/aer.104.4.1091
        • Hedges, L. e Nowell, A. (1995). Sex differences in mental test scores, variability, and numbers of high-scoring individuals. Science, 269(5220), 41-45. doi:10.1126/science.7604277
        • Judge, T., Livingston, B. e Hurst, C. (2012). Do nice guys, and gals, really finish last? The joint effects of sex and agreeableness on income. Journal of Personality and Social Psychology, 102(2), 390-407. doi:10.1037/a0026021
        • Kleven, H., Landais, C. e Søgaard, J. (2019). Children and gender inequality: evidence from Denmark. American Economic Journal: Applied Economics, 11(4), 181-209. doi:10.1257/app.20180010
        • Mueller, G. e Plug, E. (2006). Estimating the effect of personality on male and female earnings. ILR Review, 60(1), 3-22. doi:10.1177/001979390606000101
        • Stoet, G. e Geary, D. (2018). The gender-equality paradox in science, technology, engineering, and mathematics education. Psychological Science, 29(4), 581-593. doi:10.1177/0956797617741719
        • Weisberg, Y., DeYoung, C. e Hirsh, J. (2011). Gender differences in personality across the ten aspects of the Big Five. Frontiers in Psychology, 2, 178. doi:10.3389/fpsyg.2011.00178
        Aprofundar: caudas da distribuição e segregação por instrução

        Mulheres em cada fatia de salário

        Segregação por instrução (índice de Duncan)

        A imprensa chama de “mesma função” uma diferença que é duas vezes e meia maior que a real

        Refizemos na RAIS cada número publicado em 2025 e 2026 sobre salário de homens e mulheres. O problema existe e não precisava ser inflado. Mas a cobertura trocou a média pela comparação de iguais, viu tendência onde há estabilidade e usou imagens de efeito no lugar de contas. Quando o número está certo, dizemos que está certo.

        Aprofundar: estados e setores

        Estados: ranking do MTE e mesma função

        Setores

        Veredito: a tese multivariada acerta o método, mas os dados não fecham a conta

        O que isso quer dizer

        Paridade: justiça para quem faz o trabalho justo

        Diagnóstico: o problema está no topo, na carreira depois dos 25 e nas grandes empresas privadas

        O que os dados apontam como origem da diferença, e o que eles descartam. Em seguida, caminhos de remediação ligados a cada ponto. Os dados mostram onde a diferença está; o efeito de cada medida precisa ser avaliado na prática.

        Onde está o problema

        O que os dados descartam

        Caminhos de remediação

        Fonte, quantos analisamos e como fizemos

        Código aberto. Os 13 scripts em Python que produzem cada número deste site estão no GitHub, com a metodologia completa, as fontes e um passo a passo para baixar os dados oficiais e refazer tudo. A página de metodologia traz as equações e os testes.

        github.com/asgreca/paridade

        Fonte dos dados

        Quantos analisamos

        A unidade da RAIS é o vínculo de emprego (um posto de trabalho com carteira ou estatutário). Quem tem dois empregos formais conta duas vezes. Em cada ano entram os vínculos ativos em 31 de dezembro.

        Por que amostra, e a prova com a base inteira

        A regressão com efeito fixo de ocupação tem cerca de 140 variáveis. Com os 52 milhões de vínculos de um ano, a matriz passaria de 58 GB de memória. Por isso as regressões usam 1 em cada 20 vínculos, sorteados. Para provar que a amostra não muda o resultado, refizemos a regressão principal com todos os vínculos, em lotes de ocupações (o efeito fixo de ocupação permite somar os lotes e chegar exatamente ao resultado da base inteira).

        Metodologia, passo a passo

        1. Filtros. Entram vínculos ativos em 31/12 com jornada contratada de 10 a 48 horas semanais, remuneração média de R$ 500 ou mais, idade de 16 a 70 anos e sexo e instrução informados. Ficam de fora registros incompletos ou com jornada atípica.
        2. Salário. Remuneração média mensal nominal do ano. Nas regressões usamos o logaritmo, e a diferença é convertida em porcentagem. O salário-hora divide a remuneração pela jornada contratada × 4,348 semanas.
        3. Comparação de iguais (a "escada"). Regressão do salário no indicador de sexo, acrescentando a cada passo: jornada; instrução; idade e tempo de casa; porte da empresa, estado, setor (CNAE) e público/privado; ocupação detalhada (CBO de 6 dígitos, por efeito fixo); ocupação × município. O coeficiente do sexo é o gap entre pessoas iguais em tudo o que já foi igualado.
        4. Amostras. Os números descritivos (médias, medianas, contagens, mapas de fluxo) usam a base inteira. As regressões usam uma amostra aleatória de 1 em cada 20 vínculos (1 em 5 no mapa), sorteada por função de hash, o que dá 2,4 a 2,6 milhões de vínculos por ano.
        5. Incerteza. Erro-padrão agrupado por ocupação (ou por município, nas profissões) e intervalos de confiança de 95%. Na decomposição, intervalos por bootstrap de ocupações (30 réplicas).
        6. Decomposição. Oaxaca-Blinder com a regressão conjunta e indicador de sexo (Fortin, 2008): cada fator explica (média das mulheres − média dos homens) × efeito do fator no salário. O que sobra é a parte não explicada.
        7. Condições de trabalho. A RAIS não informa o adicional pago, então classificamos o posto. Insalubridade: ocupações típicas da NR-15 (abate e frigorífico, coleta de lixo, fundição, forno, solda, galvanização, cana, limpeza hospitalar). Risco medido: % de vínculos afastados por acidente típico ou doença do trabalho (causas 10 e 30) na combinação ocupação × atividade, sempre na RAIS 2023.
        8. Experiência e maternidade. Tempo de casa vem da própria RAIS. Experiência potencial = idade − anos de estudo − 6 (Mincer). Licença-maternidade = causa de afastamento 50 (98% mulheres, mediana de 120 dias), só em 2023.
        9. Distribuição e mapa. Gap em cada percentil por regressão quantílica incondicional (RIF). Mapa: a mesma regressão em cada uma das 137 mesorregiões do IBGE; o teste de homogeneidade (Q de Cochran, I²) diz se as diferenças entre regiões passam do acaso.
        10. Pessoas × coisas e segregação. Ocupações classificadas pelos grupos da CBO (saúde, ensino e cuidado = pessoas; engenharia, TI, produção, obra e manutenção = coisas). Segregação pelo índice de Duncan.
        11. Por que 2023 em algumas partes. Em 2024 e 2025 o registro de afastamentos na RAIS ficou incompleto: todas as causas, inclusive doença comum, caem de 35% a 50%. Por isso a taxa de acidente e a licença-maternidade vêm de 2023. Todo o resto é calculado ano a ano.
        Testes de robustez, limites da base e referências

        Robustez: gap na mesma ocupação e cidade, em subgrupos

        O que a RAIS não mostra

        • Personalidade e negociação. Nenhum registro administrativo mede amabilidade.
        • Horas extras e adicionais pagos. A RAIS traz a jornada contratada e não separa os adicionais do salário.
        • Filhos e trajetória. Os microdados públicos não seguem a mesma pessoa ao longo dos anos.
        • Informalidade. Só o emprego formal.
        • Mesma empresa. Sem CNPJ nos dados públicos; controlamos porte, setor, estado e município.

        A parte "não explicada" não é sinônimo de discriminação: junta discriminação e tudo o que a base não mede. O que dá para afirmar é que as variáveis observáveis, inclusive as das teses testadas, não a eliminam.

        Referências dos métodos

        • Oaxaca, R. (1973). Male-female wage differentials in urban labor markets. International Economic Review, 14(3). doi:10.2307/2525981
        • Blinder, A. (1973). Wage discrimination: reduced form and structural estimates. Journal of Human Resources, 8(4). doi:10.2307/144855
        • Fortin, N. (2008). The gender wage gap among young adults in the United States. Journal of Human Resources, 43(4). doi:10.3368/jhr.43.4.884
        • Firpo, S., Fortin, N. e Lemieux, T. (2009). Unconditional quantile regressions. Econometrica, 77(3). doi:10.3982/ECTA6822
        • Duncan, O. e Duncan, B. (1955). A methodological analysis of segregation indexes. American Sociological Review, 20(2). doi:10.2307/2088328
        • DerSimonian, R. e Laird, N. (1986). Meta-analysis in clinical trials. Controlled Clinical Trials, 7(3). doi:10.1016/0197-2456(86)90046-2
        • Mincer, J. (1974). Schooling, Experience, and Earnings. NBER.